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"Temos sempre de ir além do Facebook"

Caco Barcellos fala sobre o Profissão Repórter, a guerra de audiência televisiva e os desafios de publicar livros no Brasil

07 de Maio de 2012 10:27

Caco Barcellos:
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Caco Barcellos: "Não teria nenhum tipo de prazer em trabalhar em um programa com uma enorme audiência, mas que não fosse do meu agrado" Crédito: Divulgação

Destaque do jornalismo investigativo, Caco Barcellos enfrenta, há mais de 30 anos, o desafio de ir às ruas e voltar com boas histórias. Desde 2008 à frente do programa Profissão Repórter, da TV Globo, o jornalista orienta jovens profissionais na televisão. Para ele, a busca pela audiência não pode superar o prazer de trabalhar naquilo que gosta e a nova geração tem potencial e ferramentas para conduzir o País nos próximos anos.  

Meio & Mensagem ›› O Profissão Repórter começou como um quadro, no Fantástico, e já está no ar, como programa semanal, desde 2008. Que balanço você faz desse período? 

Caco Barcellos ››  É um programa de formação profissional, mas que não parte de um estágio inicial, como seria natural para qualquer pessoa que começa na carreira jornalística. Enquanto os telejornais trabalham por um processo coletivo, nós centramos todas as atividades em uma figura, que é a do repórter. Ele é responsável pela elaboração de pauta, apuração, aprofundamento da pesquisa, gravação, redação e edição. São tarefas difíceis para todo mundo, até para os mais experientes, mas ao mesmo tempo é algo fascinante, que dá vontade de fazer. Se eu pudesse fazer o que quisesse da vida, com certeza iria pegar a câmera e partiria sozinho atrás de boas histórias também.

Meio & Mensagem ›› Como você lida com a disputa pela audiência televisiva? 

Caco Barcellos ›› Sempre tive interesse pela audiência. Quando escrevia para jornais, costumava passar por algumas bancas e parava para ver o pessoal ali, prestando atenção se alguém folheava as minhas matérias. Mas essa cobrança acontece porque, no fundo, quero contar uma boa história e, para ter certeza de que ela é boa, as pessoas precisam assistir ou ler. No programa buscamos sempre uma temática que seja do agrado da maioria das pessoas.  

Meio & Mensagem ›› Mas em alguns casos essa busca pela audiência acaba derrubando o nível dos programas de TV. O que você pensa sobre isso? 

Caco Barcellos ›› Penso que trabalho demais, nossa equipe também trabalha muito e seria um enorme sacrifício trabalhar tanto para fazer algo de que não gosto. Seria extremamente infeliz se tivesse de fazer alguma coisa com a qual não concordo somente porque o público quer ver aquilo. Não teria nenhum tipo de prazer em trabalhar em um programa com uma enorme audiência, mas que não fosse do meu agrado. 

Meio & Mensagem ›› O Profissão Repórter te colocou em contato direto com os jovens. Como você vê o potencial dessa nova geração? Eles estão preparados para conduzir o País? 

Caco Barcellos ›› Sou muito otimista, acho que estão, sim. Ao comparar essa geração com a minha, vejo que eles têm um nível de informação enorme e fazem bom uso dela. Eles não precisam trabalhar do jeito que eu trabalhava, pois têm outros instrumentos e ferramentas que facilitam o processo de busca por informação. Um exemplo da postura dessa nova geração aconteceu no nosso programa. Saí de uma entrevista acompanhado do repórter Felipe Bentivegna (da equipe do programa) e perguntei o que ele tinha achado do entrevistado. Ele me respondeu: “Facebook.” Eu disse: “Como assim, Facebook?” Aí, ele explicou que o entrevistado tinha nos apresentado a imagem que ele achou que ficaria melhor, tal como as pessoas fazem no Facebook. Ou seja, com a linguagem da rede, ele criou uma visão crítica e mostrou que temos sempre de ir além do Facebook (risos). 

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Caco Barcellos: "As boas histórias nascem da obrigação de observar a realidade, sacar as coisas, ficar atento ao que está acontecendo." Crédito: Divulgação

 

Meio & Mensagem ›› Você foi bem-sucedido na publicação de seus livros-reportagens (Rota 66 e O Abusado). O mercado de livros no Brasil, porém, ainda enfrenta muitas dificuldades. O que acha que é preciso para mudar esse quadro?  

Caco Barcellos ›› Queria que fosse um mercado mais profissional para os autores. Não conheço, salvo uma ou duas exceções, um autor que viva de livros no Brasil. Então, deve ter algo de errado nesse processo. Uma editora me disse, uma vez, que quem mais ganha no mercado editorial é o motorista da Kombi, que distribui os livros nas livrarias (risos). Por muito tempo da minha vida quis ser só escritor, mas não dá, mesmo considerando que meus livros foram sucesso de vendas. Ainda assim, não daria para viver só deles.  

Meio & Mensagem ›› Tem algum novo projeto no ramo editorial? 

Caco Barcellos ›› Tenho a ideia de um livro, mas nem vale a pena falar porque ele está parado há muitos anos. O que pesa contra, além da falta de tempo, também é uma certa covardia, porque eu sofro muito quando escrevo. É uma coisa árdua, solitária. Quando escrevi os outros livros, quase fiquei louco. Foram cinco anos sem uma sessão de cinema, sem lazer, porque eu trabalhava 14 horas por dia e escrevia o livro no tempo que sobrava. Eu escrevi O Abusado praticamente dormindo (risos). Então, jurei que nunca mais escreveria um livro enquanto estivesse trabalhando na TV. 

Meio & Mensagem ›› O que você acha das teorias que profetizam o fim da televisão e da mídia impressa?  

Caco Barcellos ›› Na verdade, acho que nunca se assistiu tanto à televisão como agora, pois as pessoas podem não estar vendo na aberta, mas estão acompanhando no cabo, no computador, no celular. Acho que teremos muito mais trabalho para abastecer todas essas mídias. No caso da mídia impressa, acredito que o caminho mais certo seja se voltar à análise dos fatos e não dar hoje manchetes sobre fatos que aconteceram ontem. Até porque todo mundo — os humoristas, políticos e até o público — acaba sendo nosso concorrente.  

Meio & Mensagem ›› Qual dica você dá aos profissionais de comunicação que precisam contar boas histórias?  

Caco Barcellos ›› Acho que as boas histórias nascem da obrigação de observar a rea­lidade, sacar as coisas, ficar atento ao que está acontecendo. No caso do jornalismo, especificamente, é estar atento para as coisas que a mídia não vem dando muita atenção. Também é preciso ser criativo, porque a concorrência é muito grande. Nosso único compromisso deve ser com a explicação dos fatos, da melhor maneira possível. E a inspiração vem de tudo: com a TV, com o cinema, com a propaganda. Mas confesso que é muito difícil ser criativo sempre.  

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