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02 de Julho de 2012 • 14:16
Gustavo Cerbasi Crédito: Divulgação
Por Orlando Figueiredo
O consultor financeiro Gustavo Cerbasi, autor de títulos como Casais Inteligentes Enriquecem Juntos e Investimentos Inteligentes, atingiu seu primeiro R$ 1 milhão aos 31 anos. Aos 38, já conta com 1,5 milhão de livros vendidos. Cerbasi critica o segmento editorial de autoajuda e comenta as estratégias usadas pela propaganda para atingir o público. Confira aqui techos inéditos da entrevista.
Meio & Mensagem ›› A maioria dos títulos de seus livros associa inteligência a enriquecimento. Poupar/investir tem a ver realmente com inteligência ou tem mais relação com conhecimento e planejamento?
Gustavo Cerbasi ›› A inteligência financeira tem a ver com autoconhecimento, com saber realmente o que nos move na vida, o que nos motiva e recompensa. No livro Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, por exemplo, convido os casais a aprimorarem suas escolhas a partir de uma sutil mudança na rotina: conversarem mais sobre dinheiro. A maneira de conduzir essa conversa também tem a ver com inteligência, pois proponho que, em vez de se questionarem sobre os hábitos de consumo, os casais comecem conversando sobre sonhos que estão ficando para trás e que merecem ser resgatados. Ao tratar de sonhos, são obrigados a quantificá-los, fazer contas. E, sabendo quanto custa alcançar um sonho, são induzidos a mudar gastos supérfluos e desnecessários, movidos pela cenourinha do grande objetivo a conquistar. Na prática, falar sobre dinheiro ajuda a desenvolver uma inteligência coletiva, uma oportunidade de trocar anseios, dúvidas e opiniões, para que as escolhas aconteçam com qualidade cada vez melhor.
M&M ›› Além de ensinar a manter a área financeira em dia, é notável a sua preocupação com a estrutura familiar e participação da família, por isso também alguns de seus livros possuem essa temática. Para você, essa estrutura é importante não apenas para o desenvolvimento psicológico, mas também para esse equilíbrio financeiro?
Cerbasi ›› Não vejo sentido em colocar as contas em ordem cortando radicalmente tudo aquilo que se convencionou chamar de supérfluo. Não existe supérfluo.
Sempre temos um motivo para comprar alguma coisa, mesmo que esse motivo seja a falta de recompensas na vida, que nos leva à recompensadora sensação proporcionada pelo consumo. Quando pensam em poupar, as pessoas cortam os gastos mais fáceis de serem cortados. Normalmente, são gastos com lazer, bem estar e pequenas manias. Colocam as contas em ordem e detonam a felicidade da família. Isso não é sustentável. Para conduzirmos qualquer objetivo de longo prazo, precisamos estar motivados. É por isso que recomendo às pessoas que preservem gastos com bem estar, como cafezinhos, revistas e outros tipos de lazer, e cortem gastos como a moradia e o automóvel. Se você mudar para uma moradia 15% mais barata, continuará com moradia e ainda passará a ter mais verba para o lazer e para poupar, concorda? É por isso que sustento a ideia de que uma vida mais simples naturalmente se traduz em uma vida mais rica em experiências.
M&M ›› As taxas de inadimplência no Brasil estão cada vez mais altas. Em sua opinião a publicidade é responsável por incitar esse consumo exagerado?
Cerbasi ›› De forma alguma. Não há nada mais estúpido do que culpar a inteligência da publicidade pela ignorância do consumidor. Devemos louvar aquilo que é bem feito, aplaudir quem faz vender gelo no Alasca. Isso é fruto de conhecimento de mercado, anos de estudo, profissionalismo e ciência. O que falta ao Brasil é discernimento do consumidor, que vai às compras sem saber ao certo o que quer. A inadimplência é fruto de compras impulsivas, que são fruto de falta de planejamento e/ou organização, que por sua vez são falta de educação adequada nas escolas. Falta-nos entender mais de filosofia, para questionarmos as mensagens que chegam a nós através da competente publicidade. Falta-nos também a educação financeira em si, para que saibamos melhorar a qualidade de nosso consumo, de nossas dívidas, de nossos planos e de nossos investimentos. Aprendemos, sim, mas somente após errar muito.
Perceba: pessoas de mais idade são mais críticas em relação à propaganda, leem contratos, pesquisam preços, comparam possibilidades. Os mais jovens, por outro lado, são impulsivos nas decisões. Perderão muito dinheiro até aprender. Qual o papel da publicidade? Explorar o ponto fraco da outra parte, como se faz em qualquer profissão.
M&M ›› De que maneira a publicidade pode aproveitar os seus ensinamentos para divulgar suas marcas de maneira mais eficaz?
Cerbasi ›› Acho que a publicidade desempenha bem seu papel. Ela deve é estar atenta para uma importante mudança que está ocorrendo na sociedade brasileira, com o consumidor cada vez mais consciente, questionador e munido de ferramentas de comparação. Isso já foi percebido. Grandes ícones dos textos publicitários brasileiros estão perdendo força, como as ideias de parcelamento sem juros, juro zero, investimentos que não rendem, crédito fácil e vendedor como grande amigo. Bancos usaram a publicidade para desfazer a imagem do banqueiro e criar a imagem da empresa que presta serviços customizados. Seguindo a tendência da educação financeira, a próxima preocupação deve ser deixar de explorar a ignorância e passar a diferenciar as marcas de acordo com a qualidade da informação e do serviço que prestam.
M&M ›› O que você acha da atual publicidade brasileira?
Cerbasi ›› Como em qualquer outra área profissional, a publicidade brasileira sofre limitações decorrentes de nossa frágil educação, da falta de planejamento e das limitações impostas pela falta de tradição em estudar ou pesquisar o mercado. Mesmo assim, é um dos mais competentes setores de serviços da economia, devido à forte competição e às elevadas verbas investidas pelos clientes. Devido a seu típico dinamismo, creio que a publicidade não terá dificuldades em se adaptar às mudanças de comportamento do consumidor.