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Publicidade e música têm de caminhar juntas

Nesta entrevista, o cantor Ritchie, famoso pelo hit Menina Veneno, avalia o momento atual da indústria da música

16 de Julho de 2012 08:31

Cantor Ritchie
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Cantor Ritchie Crédito: André Valentim

Por Teresa Levin

Ele veio morar no Brasil há 40 anos e fez muito sucesso nos anos 1980, com o hit Menina Veneno. Ainda marcado por esta música, o inglês Ritchie resolveu comemorar os 60 anos com um novo trabalho, só com canções da década de 60, que escutava quando era estudante de colégio interno em seu país natal. Com 30 anos de carreira-solo, o artista analisa as mudanças que a indústria fonográfica vem enfrentando com o domínio digital e fala da facilidade de gravar no idioma nativo: “Foi uma delícia, porque estou cantando essas músicas há 50 anos no chuveiro.”

Meio & Mensagem ›› Como escolheu o repertório do disco 60? Por que optou por regravações?
 

Ritchie ›› Queria comemorar os 60 anos com este disco, que é só de músicas da década de 60. Não são músicas óbvias — não tem Beatles, Rolling Stones, Kinks ou Beach Boys. Escolhi músicas que chamaria de lado B: apesar de terem sido grandes sucessos na Inglaterra, não são as que todo mundo pensa imediatamente quando se fala nesta década. Comecei com 154 músicas há uns dois anos e fui filtrando, acabei ficando com as que tinham orquestra, que era uma grande paixão. Tem algumas bandas americanas, porque na Inglaterra as rádios eram estatais, basicamente tínhamos a BBC no começo dos anos 1960. Não havia rádios comerciais. No colégio interno, era proibido ter rádio a pilha, mas todo mundo tinha, era a nossa rebeldia na época. Quando apagavam as luzes nos dormitórios, ligávamos nas rádios piratas. Elas vinham de embarcações que ficavam fora dos limites das águas territoriais britânicas e transmitiam para toda Europa uma música que chamaríamos, atualmente, de indie — as produções independentes. O exótico para nós era o que vinha de fora e desta época gravei Jimmy Webb, Burt Bacharach e outros. 

M&M ›› Por que só agora gravou um disco em seu idioma natal? 

Ritchie ›› Estou há 40 anos no Brasil cantando em português e confesso que é difícil. Quando gravei este disco percebi o quanto! Gravá-lo foi uma delícia, porque estou cantando essas músicas há 50 anos no chuveiro. E, em inglês, gravei tudo de primeira! Foi um reencontro com a minha língua, com os primórdios da minha vontade de ser músico, mas, principalmente, tive liberdade de interpretar sem me preocupar com dicção, pronúncia e significado das palavras. Não era um processo muito natural gravar em português, era uma coisa de laboratório e exigia muita atenção. Desviava um pouco da naturalidade. 

M&M ›› Você lançou este disco no seu aniversário de 60 anos e já está fazendo shows com este repertório. Mesmo com este novo trabalho, as pessoas ainda pedem para cantar Menina Veneno? 

Ritchie ›› Sempre. Não posso deixar de tocar esta. É, ao mesmo tempo, a cruz que carrego e, de certa forma, o motivo pelo qual estou fazendo shows ainda. Menina Veneno é o que, no fundo, cria essa curiosidade pela minha carreira, que é baseada naquele primeiro disco. Já lancei nove ou dez discos, mas os hits estão todos ali, não adianta. Depois quis evoluir, mas ninguém deixa. Mas graças a Deus tenho essas músicas, que tiveram um grande impacto 30 anos atrás e ainda me mantêm, eu ainda vivo disso. É até certa falta de educação com meu público fazer um show e não tocá-la. 

M&M ›› Como você avalia o atual momento da indústria da música, com a chegada do digital?
 

Ritchie ›› Vamos ter de lidar com este mundo digital de alguma forma, porque nem tudo pode ser de graça. De certa forma, a tendência é tudo virar serviço. A música, aos poucos, torna-se como a água, que pagamos a conta, mas é como se fosse de graça. Esperamos que isso evolua de alguma forma. O problema é que no Brasil não tivemos uma transição muito pacata entre o mundo físico e o digital na área de música. Deixaram de vender CDs e não houve uma alternativa que substituísse isso, como o iTunes. Só agora ele chegou ao Brasil, após três ou quatro anos de uma geração inteira baixando música de graça. O artista já era o último da fila e, agora, ele praticamente sumiu da matemática da coisa. Ele é aquele cara que produz conteúdo, mas não é remunerado. 

M&M ›› O que você acha que pode ser feito? 

Ritchie ›› Isto tem de mudar. Não que ache que as pessoas vão parar de fazer música, mas muita gente vai deixar de viver de música. Está havendo uma mudança muito grande, tanto em quem produz conteúdo, quanto para quem consome e acho que as respostas não virão das grandes corporações que vendiam CDs. As grandes gravadoras estão todas acabando, elas mesmas estão reconhecendo que estão se tornando aos poucos distribuidoras de não sabem muito bem o quê. Ao mesmo tempo, temos de encontrar um jeito para que os artistas e produtores de conteúdo, não só de música, mas de cinema, TV, publicidade e tudo mais, encontrem meios de atingir seu público-alvo e viver disso. É muito bonito fazer música e todo mundo ouvir, mas para fazer o próximo disco, este tem de vender para financiar o próximo. Esbarramos em novos modelos de negócios e a publicidade surge como uma alternativa. 

M&M ›› Como assim? 

Ritchie ›› Até o fim dos anos 1990, a publicidade e a música não eram companheiras. A música até era usada para vender produtos, mas não da maneira que se faz agora, com o licenciamento de músicas já gravadas. Hoje temos artistas como o Moby, que revolucionou. Ele fez um CD e todas as faixas foram veiculadas por meio da publicidade. Foi uma maneiraque ele encontrou de financiar sua obra, atingir um público abrangente por meio da publicidade. Até então ele teria sido chamado de “sell out” na Inglaterra, seria um cara que vendeu a alma para o diabo. Hoje a publicidade e música têm de caminhar juntas, uma salva a outra, de certa forma. Vejo a publicidade como uma saída.  

M&M ›› Você já fez publicidade? 

Ritchie ›› Nunca. Já tive propostas, mas não topei. Hoje em dia não excluo isso como uma maneira de perpetuar a minha arte. Há um interesse mútuo e é uma maneira de gerar recursos porque a venda de música, exclusivamente, não resolve o problema. Tem gente que fala que artista não precisa ganhar dinheiro vendendo música, porque tem os shows, mas na verdade eles pagam os custos da gravação, da mixagem, da masterização. Estes custos não diminuíram. Acho que as soluções vêm, como sempre, dos produtores de conteúdo, e não dos gerentes de conteúdo. São os artistas que vão dar a solução para isso porque são os maiores interessados. Não me pergunte qual vai ser o modelo, mas acredito que o streaming veio para ficar. A tendência é consumirmos música pelos nossos celulares em uma espécie de serviço. Música, o produto, deixa de existir, passa a ser uma espécie de rádio interativa que você escolhe o que quer ouvir e paga uma taxa de alguma forma, ou na conta do celular, ou de forma transparente. Hoje, o jovem tem problema em pagar R$ 0,99 para ouvir e ter uma música. A grande ironia é que esse era o preço que um compacto custava em 1960, não evoluiu. Mais de 40 anos depois, o preço é o mesmo e as pessoas pensam duas vezes antes de pagar porque se tem de graça ali, por que gastar? 

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