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29 de Junho de 2012 • 16:08
Andy Miah, Diretor do Creative Futures Research Centre e chefe da área de ética e tecnologias emergentes do departamento de negócios e criação da University of the West of Scotland Crédito: Divulgação
Por Tim Lucas
O professor Andy Miah participa de vários projetos que investigam diversos aspectos do Movimento Olímpico não relacionados ao esporte, área em que atua há dez anos. Assistiu às últimas seis Olimpíadas como estudioso, jornalista e blogueiro e acaba de publicar uma obra intitulada The Olympics, que em breve será lançada em português. Nesta entrevista ele analisa a preparação dos Jogos de Londres, o trabalho da mídia e o legado de longo prazo para os países que sediam a competição.
Meio & Mensagem Especial ›› Como foi o início de seu envolvimento com o estudo dos Jogos e do Movimento Olímpico?
Andy Miah ›› Fiz pós-graduação em ¬ciência do esporte e estudos sobre lazer que me permitiu estudar uma série de assuntos, de fisiologia e psicologia do esporte a sociologia e as repercussões culturais e políticas dessa atividade. Com isso, passei a me interessar pelo impacto da tecnologia na sociedade e nos esportes. No doutorado, aprofundei essa pesquisa e estudei uma gama de assuntos, do tipo de equipamento utilizado pelos atletas à maneira pela qual a mídia aborda os esportes e questões como o doping. Nessa época tomei contato, por acaso, com a Associação Olímpica Britânica e fui escolhido para participar do Congresso de Estudos Olímpicos, realizado anualmente, e foi aí que meu foco se redirecionou para as Olimpíadas. Em 2000, fui indicado representante do Reino Unido na Academia Olímpica Internacional, que fica ¬realmente em Olímpia, na Grécia, onde a tocha é acesa, no estádio antigo, a cada dois anos para os Jogos. É um centro de educação olímpica há 50 anos. Estudei a história olímpica, filosofia, sociologia, e isso me deu embasamento em estudos olímpicos. Trata-se do coração pulsante do Movimento Olímpico e, de certa forma, um contraponto à atuação mais comercial do Comitê Olímpico Internacional (COI) e aos profissionais encarregados de sua marca. Foi lá que conheci, com maior profundidade, a cultura das Olimpíadas.
M&M Especial ›› O que são os estudos olímpicos e onde são realizados no Brasil?
Miah ›› Essa disciplina tomou corpo nos anos 1970, desenvolvida por um grupo de estudiosos de várias áreas, tais como sociologia e antropologia. Todos os países que participam dos Jogos têm um comitê olímpico cujo programa deve incluir ações educacionais. Em 2004, fiz uma apresentação no Congresso da Academia Olímpica Brasileira, em São Paulo. Existe um grupo significativo que se dedica aos estudos olímpicos no País, por exemplo, no Rio, em São Paulo e Curitiba. Isso não ocorre em todos os países. A educação olímpica tem um papel secundário com relação ao patrocínio de atletas, que é a principal função da maioria dos comitês nacionais — dos quais só 78, de um total de 200, mantêm academias olímpicas. O Brasil, nesse sentido, vai bem, mas o problema é que estas instituições não têm grande destaque e enfrentam insuficiência de verbas. A maioria nem sabe que elas existem.
M&M Especial ›› Essas atividades acabam se perdendo em meio ao megaevento que os Jogos se tornaram?
Miah ›› Acredito que sim porque o COI financia muitos programas, além de ter seu próprio mestrado, implantado há pouco. Hoje as organizações disponibilizam verbas para esses aspectos de menor destaque do programa olímpico e estão acontecendo mudanças que, em grande parte, refletem tanto as prioridades como os ideais dos diferentes presidentes do COI. Rogge (Jacques Rogge, presidente do COI desde 2001) considera esses programas educacionais parte da missão principal da instituição. Já Juan Samaranch (presidente do COI entre 1980 e 2001) concentrava-se muito no Museu Olímpico, em Lausanne, de forma que o comitê investiu muito nele. Os itens de colecionador, como as lembranças, respondem por 7% do faturamento. Há pouco tempo, houve um grande escândalo no Reino Unido, quando algumas pessoas selecionadas para o revezamento da Tocha Olímpica puseram à venda essa participação no Ebay por milhares de libras. Isso desencadeou um amplo debate no país sobre o significado simbólico dos Jogos, além do privilégio que representam, em um contexto no qual muita gente sabe que o evento traz benefícios financeiros a um pequeno grupo de empresas, em sua maioria multinacionais de países do Ocidente. Os Jogos Olímpicos também podem chamar a atenção para muitos conflitos, dos quais eles mesmos fazem parte, bem como expor muitas contradições internas.
M&M Especial ›› Quem se beneficia com os Jogos, a humanidade como um todo ou os principais patrocinadores?
Miah ›› Há discussões em vários níveis no mundo todo, dependendo da proximidade de cada povo com os Jogos. No ¬país-sede há debates bem específicos sobre investimentos, benefícios à região em que as instalações estão sendo construídas e os futuros favorecidos na comunidade local. Para mim, é importante ter um ponto de vista mais internacional e de longo prazo a respeito das realizações do programa olímpico. Uma delas é, sobretudo, graças ao sucesso da visão do Barão de Coubertin, fundador dos jogos modernos , a dimensão internacional que ele reconheceu e que ainda se traduz em um esforço de unificação mundial, sendo o ponto principal a reunião de 205 países no mesmo local, na mesma hora, em uma busca pela paz que, por acaso, se dá por meio do esporte e procura excluir a política, além de seguir regras universais e adotar uma linguagem comum, havendo indícios de que as Olimpíadas modernas e sua estrutura econômica são propícias a tudo isso. Um exemplo é a solidariedade olímpica, que é o auxílio dado pelos países mais ricos para que o movimento olímpico possa existir nos mais pobres. Essa foi uma das grandes mudanças nos últimos 40 anos no sentido de tornar o Movimento Olímpico algo muito mais próximo às Nações Unidas do que apenas uma organização esportiva.
M&M Especial ›› E onde entram as empresas privadas?
Miah ›› Na visão oposta, tudo isso se baseia em um pequeno grupo de grandes empresas, tais como as redes de TV, além das Coca-Colas e McDonald’s da vida. As pessoas apontam isso como sendo um problema, como se os valores olímpicos de solidariedade e paz mundial fossem comprometidos por se apoiarem nos investimentos de um grupo de patrocinadores, tais como a NBC e seus parceiros globais. É verdade que os benefícios financeiros são, em grande parte, colhidos por essas organizações. Porém, concentrar-se nessa questão faz com que se ignore o fato de que o maior investimento realizado nas Olimpíadas é o envolvimento pessoal dos atletas e de todos que os cercam. Não são as verbas públicas ou o patrocínio de entidades privadas, mas sim o tempo dedicado pelos voluntários que constitui o maior investimento. Esse espírito seria deturpado se tentássemos lhe atribuir um valor financeiro. O esporte depende de voluntários em todos os níveis, e é isso que temos de defender.
M&M Especial ›› Os Jogos Olímpicos de Londres estão chegando. Como está a situação e qual é o estado de espírito no Reino Unido no momento?
Miah ›› Quando já se esteve em muitas Olimpíadas, as questões que vão surgindo no país-sede durante a preparação acabam sendo parecidas. Há claras mudanças na opinião pública no período que antecede os Jogos, e uma muito importante, em curso no Reino Unido, diz respeito ao revezamento da tocha olímpica. Todos que trabalham com os Jogos Olímpicos estão cientes de que se trata do grande trunfo do Comitê Organizador perante a opinião pública. Em 2012, a tocha passará por um raio de 16 quilômetros de 95% da população britânica, o que evidencia o esforço da organização para atingir o público. Isso pode representar um ponto de virada nas expectativas e opiniões sobre a Olimpíada e na relação do evento com as pessoas comuns. Observei a maneira pela qual a tocha e todo o cerimonial em torno dela atrai atenção no Reino Unido. O que costuma acontecer é que, quando começa o revezamento, a população acaba se envolvendo e se sentido parte da coisa. Eu preferiria ver a tocha passar a ganhar ingresso para uma competição, porque a chama representa a conexão entre tudo que a envolve, além de ser um elo entre as sedes dos Jogos. Acredito que ainda veremos maior entusiasmo por parte da opinião pública por aqui.
M&M Especial ›› Como acredita que será visto, no futuro, o planejamento dos Jogos deste ano e seus resultados?
Miah ›› Quanto às questões relativas ao legado da preparação para o evento, a partir de minhas conversas com gente de outros países, tenho a impressão de que fizemos um ótimo trabalho. Londres conseguiu, concretamente, algumas ¬realizações admiráveis. Por exemplo, o logo dos Jogos de 2012, tão ridicularizado no lançamento, é, de longe, o mais revolucionário de toda a história. O grande lance de ousadia dos designers foi colocar os anéis olímpicos dentro do logo. Assim, bastar tirar os anéis e se pode utilizar a marca sem temor de violar as normas e diretrizes do COI. Dessa forma, seguem-se as regras, mas também se pode usar o logo de maneira diferente, o que permitiu expandir a marca além do que qualquer outra cidade-sede havia conseguido. Por exemplo, criou-se a marca “Inspired By”, na qual é possível ver que os anéis foram removidos, de forma que não há conflito envolvendo o seu uso. Pode-se, assim, trabalhar com outros parceiros, oficiais ou não, associando-os ao programa sem problemas relativos aos direitos de uso. Foi uma medida inteligente do Comitê Organizador de Londres, expandindo e democratizando a marca. Muitas organizações de pequeno porte poderão se associar aos Jogos e, após o encerramento, todos ouvirão que o evento gerou mais atividade cultural que qualquer outra edição.
M&M Especial ›› Quais são as mudanças na relação entre a mídia e os Jogos?
Miah ›› Pesquiso diversos aspectos dos Jogos, mas nas cidades olímpicas, passo muito tempo observando a evolução da infraestrutura de mídia e a atuação dos jornalistas. Uma das mudanças mais interessantes decorre da imposição pelo COI de um limite ao número de credenciais de imprensa. Venho investigando as consequências para os jornalistas que não as recebem. Tem havido avanços para atender a mídia não credenciada, e esse tem sido um dos pontos principais de minha pesquisa. Em Sidnei, sete mil jornalistas trabalharam sem credenciais, com acesso apenas aos centros de mídia especialmente criados para esse público pela prefeitura local, que percebeu a necessidade de envolver esses profissionais na promoção da cidade em outros países. Em Londres, são esperados 13 mil jornalistas não credenciados. Isso reflete o fato de o COI estar começando a se dar conta de que os Jogos Olímpicos proporcionam uma vivência muito mais ampla, que atinge a sociedade como um todo. Não se trata apenas de um evento esportivo, mas de um fenômeno social, de forma que a quantidade de jornalistas que vêm à cidade interessados em destacar outros elementos além das competições em si está aumentando e aumentará cada vez mais.
M&M Especial ›› E com relação às mídias sociais?
Miah ›› Estou um pouco decepcionado com a abordagem do comitê organizador. Não se viram grandes inovações e tem havido apenas respostas em vez de um plano de trabalho. Londres foi escolhida como cidade-sede no início da revolução das mídias sociais. A organização ainda não percebeu direito que o que as faz funcionar não é a voz de uma marca empresarial, mas sim o valor da comunicação entre gente de verdade. E é essa voz que não se ouve. Acho que está faltando uma atitude inteligente nesse sentido.
M&M Especial ›› Que lições que o Brasil deva aproveitar após o encerramento dos Jogos de Londres?
Miah ›› O Rio precisa, logo de início, perceber que se comunicará com jornalistas, não só esportivos, de todo o mundo. Dessa forma, é preciso, em nível local, compreender as necessidades desses 20 mil profissionais, que poderão garantir que tanto o Rio como o Brasil atinjam o público mundial de uma forma que vá muito além dos esportes. Os organizadores locais precisam buscar a maneira de trabalhar com essas pessoas. Os brasileiros devem estar cientes de que o trabalho tem de ir muito além do público e das 28 federações esportivas, ainda que essas sejam as prioridades do COI. A cultura e a sociedade precisam estar no cerne do programa e desempenhar um papel central em todas as ações. Se não for assim já ao início, pode-se perder uma oportunidade. A organização dos Jogos de Londres começou a se dar conta disso em 2010 e criou o primeiro centro de mídia para jornalistas não credenciados, por exemplo. No entanto, os comitês organizadores podem não dar a devida atenção aos aspectos educacionais e culturais porque têm de se dedicar aos atletas, segurança, transporte etc. Porém, para transformar a percepção que o mundo tem de uma cidade como o Rio, é necessário cuidar dessas outras dimensões também. Foi assim que Barcelona conseguiu se beneficiar em 1992. Os Jogos Olímpicos servem como catalisadores para muitas coisas e, no Brasil, já deve ser possível observar que podem ter muitas consequências em longo prazo. O país que sedia os Jogos Olímpicos deve considerar o legado como algo mais que apenas as consequências imediatas, mas também as repercussões de longo prazo para o Movimento Olímpico.