“A história não vai nos perdoar”, diz Nobel
Paul Krugman faz um balanço da crise nos Estados Unidos e Europa e seus efeitos no Brasil, ao participar de evento promovido pela revista Exame
Por Eliane Pereira e Rodrigo Manzano
“A crise não foi uma praga de gafanhotos e a história não vai nos perdoar. Esse é o fracasso mais extraordinário de política e de inteligência (econômica) que já vi. É um fracasso técnico. Achávamos que sabíamos o que fazer e fracassamos. Como resultado, temos essa economia deprimida. Que confusão fizemos! A história não vai nos perdoar”, lamentou o economista e Nobel de Economia Paul Krugman, ao participar do Exame Fórum, na manhã desta sexta-feira, 14. Para ele, não apenas os efeitos da crise ainda são sentidos como o mundo não se livrou da turbulência que começou nos Estados Unidos em 2008 e ganhou a Europa em 2012. “Acreditamos que tínhamos um corpo teórico capaz de lidar com a crise, mas face a uma crise real, os acadêmicos e legisladores falharam e perderam a coragem diante dos conflitos políticos”, admitiu.
Colunista do The New York Times e um dos mais controversos economistas da atualidade, Krugman é professor da Universidade Princeton e ganhador do Nobel de Economia de 2008. Tem sido um dos economistas mais requisitados para explicar a crise econômica global, mas não poupa críticas aos próprios economistas e à inépcia dos governos em regular de maneira mais firme os mercados, por um lado, ou então a irresponsabilidade fiscal de outros governos. Krugman foi o conferencista de abertura do 4º Exame Fórum, realizado pela revista Exame, da Editora Abril, em São Paulo, nesta sexta-feira, dia 14.
Para Krugman, ainda estamos longe de nos vermos livres da crise financeira. “Tivemos uma crise financeira muito grande há cinco anos e de modo algum conseguimos ainda nos recuperar”, afirma. “Podemos ver nas economias avançadas que as coisas ainda continuam graves”, completa. Para o economista, existem semelhanças em aspectos da crise nos Estados Unidos e na Europa, uma delas “é a concorrência para quem consegue fazer pior”. Segundo ele, o nível de endividamento dos norte-americanos se amplia a partir dos anos 1980 sem que ninguém tenha se dado conta do risco que representava, principalmente quando os bancos se tornaram “disponíveis” para uma maior oferta de crédito. “É como nos desenhos animados, você só começa a cair no penhasco quando olha para baixo”, compara, ao se lembrar da crise dos subprimes. Krugman afirma ser impossível fazer previsões antes do resultado eleitoral nos Estados Unidos e de saber se o presidente vitorioso poderá contar com maioria no Congresso.
Consumo versus investimento
Em contraponto ao cenário ainda sombrio desenhado por Krugman, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, fez uma análise positiva dos fundamentos da economia brasileira e garantiu que o segundo semestre será melhor, em termos de crescimento, do que o primeiro. A previsão do ministro tem como base os indicadores mais recentes, que apontam retomada (ainda que tímida) da produção industrial, aumento das vendas do comércio varejista e do setor de material de construção, além do recorde na venda de automóveis em agosto (devido à redução do IPI). Segundo Mantega, o PIB nacional crescerá acima de 4% em 2013.
“Quero desmistificar a ideia de que o Brasil cresceu por causa do consumo. O que mais aumentou nos últimos anos foi a formação bruta de capital fixo: entre 2004 e 2011, o investimento no Brasil cresceu 90%”, disse Mantega, ao citar uma série de medidas tomadas pelo governo para reduzir o custo Brasil e tornar o país mais competitivo, como a desoneração da folha salarial, a redução das tarifas de energia elétrica e o programa de concessão de rodovias e ferrovias à iniciativa privada. Muitas dessas iniciativas, entretanto, só se farão sentir no mínimo a partir do ano que vem, reconheceu o ministro.
“O Brasil tem seguido o caminho do meio no que diz respeito a consumo e investimento”, apontou o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri. O economista enfatizou os avanços da metade mais pobre da população que, segundo ele, “teve crescimento chinês nos últimos anos”. “A revolução na base da pirâmide é mais sustentável do que eu acreditava e ela é baseada em trabalho, educação e na preocupação em dar um futuro melhor aos filhos, muito mais do que em consumir. Os brasileiros da base estão levando muito a sério o projeto de subir na vida”, avaliou Neri.
O Exame Fórum é patrocinado por Bradesco, Vivo, Banco BVA, Ford, CNI e GE.
