Quando é melhor ter alguém ao lado
Duplas de diretores de cena dão sua receita para uma relação bem-sucedida: complementariedade e respeito ao espaço do outro
Duplas de diretores de cena dão sua receita para uma relação bem-sucedida: complementariedade e respeito ao espaço do outro
Felipe Turlao
18 de julho de 2011 - 8h00
Quando envolvem funções que têm cunho autoral, as relações profissionais entre duas pessoas nem sempre são fáceis. A produção de filmes publicitários segue briefings elaborados pela criação das agências, mas é rotina os diretores de cena sugerirem mudanças para melhorar o resultado final. Na grande maioria dos casos, embora as produções envolvam vários colaboradores, a direção dos comerciais é feita por um único profissional. Entretanto, cresce a corrente que defende que o trabalho em dupla funciona melhor.
O exemplo mais bem-sucedido desta linhagem está na Sentimental Filmes. Luciano Zuffo e Maurício Guimarães iniciaram a produtora em 2002, ao lado de Marcos Araujo e Bill Queen, em parceria com a Neve Sentimental, de Hamburgo. Mas dois anos antes, Zuffo e Guimarães já dirigiam filmes em dupla.
Guimarães é jornalista e cineasta, e fez carreira na publicidade na DM9DDB. Já Zuffo formou-se cineasta e tornou-se diretor de arte na DPZ, AlmapBBDO e DM9, onde conheceu o parceiro. “A nossa parceria já dura mais tempo do que muitos casamentos”, diverte-se Zuffo. Eles completam neste ano exatos dez anos de parceria atrás das câmeras.
Não é fácil encontrar casos assim no mercado. Outros que trabalham em parceria fixa são as duplas 300ml, da Mixer; e Dois, formada por Pedro Pereira e João Dornelas, da Sentimental. Diretores como Cisma se esmeram em parcerias momentâneas, como as que já formou com Carlos Manga Jr. e Paulo Vainer, ambos da ParanoidBR.
A primeira lição dos casos bem-sucedidos: complementariedade e respeito ao espaço do outro são fatores fundamentais. “A personalidade é muito importante. No nosso caso, somos tranquilos e não ficamos disputando o espaço do outro. O nosso set não é um lugar tenso. Temos um limite do qual não passamos, porque não adianta querer atropelar o outro”, diz Zuffo, que é mais focado na direção de arte e tem funções como a de analisar a locação. Já Guimarães é mais experiente em dramaturgia e relacionamento com o elenco.
Segundo Guimarães, uma das vantagens do formato em dupla é o aumento da produtividade. Juntos, eles produzem entre 20 e 25 filmes por mês. O diretor de cena garante que se trabalhassem separados, a produção somada não chegaria perto desse número. “O formato de dupla só agrega em termos de velocidade. Em tempos de limites de prazo e de investimentos menores do que antes, temos que estar sempre bem preparados para a demanda”, frisa.
O entrosamento já gerou histórias divertidas. Imagine filmar um comercial estrelado por Zeca Pagodinho. Amante de um copo de cerveja gelado, o cantor tem um comportamento, digamos, disperso. O que poderia ser um problema para um diretor que atua sozinho, tornou-se um caso engraçado contado por Zuffo. “Ele saía para tomar cerveja no intervalo e gostava de mostrar suas músicas. O Maurício o acompanhava e gostava de ouvir. Enquanto isso, eu fazia o que mais gosto, que era ficar tocando o set”, relembra.
A parceria foi fundamental também na missão de reunir Ronaldo, Kaká e Maradona no mesmo comercial. O mais difícil não foi convencer Maradona a cantar o hino brasileiro no comercial da Duda Propaganda para Guaraná Antarctica. Mas sim gerenciar a tensão ocasionada pelo atraso de 12 horas do argentino, acometido por uma gripe, e pelo fato de ter chegado ao set acompanhado por um staff de dez pessoas. Não é este definitivamente o tipo de logística suportável por apenas um diretor.
Cachês e stress divididos
Para Cisma, da ParanoidBR, o trabalho em dupla é bom para projetos grandes ou em situações nas quais a filmagem precisa ser acelerada. “O único aspecto negativo de dirigir a direção é ter de dividir também o cachê”, brinca. “Mas o nível de stress também diminui pela metade”, completa.
Apesar de dizer que prefere dirigir isoladamente, ele reconhece que gostou da experiência de dividir o set. Seu último projeto com essa característica foi o filme “Narcisos”, criado pela F/Nazca S&S para Honda, dirigido em parceria com Paulo Vainer. Neste caso, a complementariedade também foi fundamental para as coisas darem certo. “Ele tinha mais experiência com filmagem de carro e um foco em direção de fotografia. Eu contribuí com a direção de design. Quando juntamos esses expertises, a coisa funciona”, relata. “Depois da filmagem conversamos e concluímos que o trabalho não seria tão bom se fosse feito isoladamente”, ressalta.
Cisma ainda acrescenta que o ganho em tempo foi grande. “Existe uma parte da filmagem que é repetição pura, até dar certo. Em vez de deixarmos a equipe esperando no set, fazíamos com que o segundo diretor já fosse para o próximo cenário e ensaiasse com a equipe. O processo foi tão ágil que terminamos uma das cenas três horas antes do previsto”, lembra. “O diretor, com isso, deixa de ser o gargalo”, analisa. Ele revela que já está em fase de orçamento um novo projeto em dupla com Vainer.
Outro comercial em que Cisma teve companhia na direção de cena foi “Cidade mágica”, para Fiat, que conduziu em parceria com Manguinha. Apesar de integrar um grande projeto da montadora — o lançamento do novo Uno —, houve apenas dois meses para a produção do filme. “Era uma campanha difícil, pesada, e que exigia muita responsabilidade. E ficou mais fácil dividindo”, analisa. “O Manguinha tem um foco em visual¬ storytelling e eu ajudei com elementos lúdicos, que acrescentaram ao jeito dele contar a história”, relembra.
O ego atrapalha
No caso da dupla Dois, Dornelas e Pereira decidiram unir forças em 2007. O primeiro tinha experiência em montagem, com prêmios por conta de curtas e longas-metragens. Pereira, por outro lado, trazia conhecimento como redator da McCann Erickson, onde atuou por dez anos. Em 2009, saíram da Santo Forte Filmes para a Sentimental, onde esperam repetir a trilha de Guimarães e Zuffo. “Para nós, não existe apenas uma maneira de fazer as coisas. Trocamos ideias e vamos evoluindo. E raramente dividimos uma mesma função dentro do projeto. Por isso que dá certo”, afirma Pereira.
Embora existam casos de sucesso, o ego tem impedido muitas parcerias de saírem do papel. “Em certas produtoras, os diretores mal se falam. Fazer parceria, então, é impossível. O clima de competição prevalece”, diz Cisma.
Um pouco do segredo dos dez anos de união de Guimarães e Zuffo, por exemplo, reside no passado deles na DM9. “A cultura de agência de publicidade, onde trabalhar em dupla é bastante comum, ajudou muito”, relembra Zuffo. “A criação é o caldeirão dos egos e, naquela época, tínhamos que lidar com eles. A publicidade acabou sendo uma grande escola”, completa.
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