Como viramos um produto que nos exaure
Começamos 2025 cansados – não com aquele charme de uma noite longa e divertida, mas com o peso de um saco de cimento emocional
Começamos 2025 cansados – não com aquele charme de uma noite longa e divertida, mas com o peso de um saco de cimento emocional
Já suspeitávamos que grande parte do problema vinha do feed infinito: um fluxo incessante de notificações, opiniões e atualizações que nos prende sem percebermos o tempo passar. Você entra para ver um vídeo de gatinho e, de repente, está imerso em uma crise geopolítica na Ásia. No X, debates fervem a cada segundo sobre qualquer tema. No WhatsApp, o grupo da família já decretou o fim do Brasil três vezes antes do café da manhã. Mas existe um outro fator que intensifica essa exaustão: nós mesmos. Ao entrarmos nas redes sociais, viramos simultaneamente mercadoria e consumidor. Cada curtida, comentário e compartilhamento alimenta um sistema que aprende a nos manter engajados pelo maior tempo possível. O produto não é o conteúdo. O produto somos nós.
As plataformas não foram feitas só para conectar pessoas, mas para transformar atenção em ativo comercializável. E para segurar essa atenção, o algoritmo estimula nossas reações mais imediatas: entusiasmo, indignação, medo. Quanto mais reagimos, mais previsíveis ficamos, e mais os sistemas refinam a entrega de conteúdos que nos prendem ali. O que parecia expressão virou uma estrutura onde somos monitorados, segmentados e constantemente estimulados a interagir.
O sonho do algoritmo milagroso, que prometia conexão, nos entregou fadiga existencial. Em um mundo onde todo assunto vira tendência, sentimos a necessidade de nos posicionar o tempo todo. Se ficamos em silêncio, somos indiferentes. Se falamos, podemos acabar em discussões que jamais imaginamos entrar. Para que as redes sociais se tornassem espaços mais saudáveis, precisaríamos de uma transformação profunda na forma como interagimos. O sistema que consumimos no feed — nós mesmos — precisa ser repensado.
Veja, por exemplo, a funcionalidade “modo ódio”. Ela deveria ser eliminada das redes sociais com severidade. Mas como fazer isso se a emoção mais lucrativa ainda é o rancor? Uma postagem feliz? Zero alcance. Uma briga? Parabéns, você viralizou. Agora, pense bem: se o ódio fosse vendido em supermercados, já teria sido proibido pela Anvisa. É um veneno para a saúde pública. Estressa, corrói o humor, provoca gastrite. Ainda assim, seguimos consumindo essa substância tóxica até a última gota, mesmo sabendo que pode nos levar a um AVC antes dos 50. Para que as redes sociais se tornem menos nocivas, o foco precisa estar na engrenagem principal: a psique humana.
Outra funcionalidade que drena nossa energia? A desinformação. Fake News não apenas distorcem a realidade, mas também minam a confiança, criando um ambiente onde tudo precisa ser verificado várias vezes antes de acreditarmos. Se antes uma notícia vinha de fontes organizadas e confiáveis, hoje convivemos com um fluxo caótico de informações nem sempre verdadeiras. Fake News parecem coisa recente, mas existem desde sempre. No século XVI, rumores alimentaram a caça às bruxas. Na Segunda Guerra, os nazistas usaram propaganda para manipular a opinião pública, mas também caíram em desinformação: tanques infláveis dos Aliados enganaram suas tropas e mudaram estratégias militares. Hoje, a desinformação é amplificada por algoritmos que impulsionam conteúdos de alto engajamento — e poucas coisas engajam mais do que uma história sensacionalista. Além disso, a resistência de muitos em aceitar fatos torna o esforço de desmenti-las uma tarefa exaustiva, afetando indivíduos, instituições, política e até a segurança pública.
No fim das contas, se conseguirmos desativar essas duas funções — “modo ódio” e “modo Fake News” —, as redes sociais se tornariam mais saudáveis e, por tabela, nossa vida ficaria menos sufocante. Como mudanças comportamentais levam séculos para se consolidar, poderíamos adotar um atalho: aplicar regulações que, assim como a proibição do uso de celulares ao volante, o uso do cinto de segurança e o teste do bafômetro, acelerem transformações profundas em pouco tempo.
Compartilhe
Veja também
Passado, presente e futuro
É preciso compreender o tempo não como um trilho, mas como um labirinto onde cada escolha redesenha o percurso
Novas dinâmicas do marketing redefinem a conexão com o público
Ao alinhar suas estratégias com as tendências globais e as demandas sociais, as marcas estarão mais bem preparadas para atuar de forma eficaz e relevante