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Opinião

Medellín e seus caminhos para a inovação

Vivendo na cidade há alguns meses, tenho buscado detectar o que a levou a ser reconhecida como a mais inovadora do mundo há alguns anos e a ser convidada a participar da Rede de Cidades Criativas, pela Unesco


31 de janeiro de 2025 - 6h00

Imagine uma cidade com a maior taxa de homicídios no mundo, onde vivia o maior narcotraficante da história, cercada por guerrilheiros que dominavam bairros inteiros através da violência e do medo, em um país com forças militares atuando ora lado a lado, ora uma contra a outra. Agora imagine uma cidade com índices de criminalidade menores do que quase todas as capitais brasileiras, que oferece transporte público de qualidade para regiões pobres e de difícil acesso, recebe mais de um milhão de turistas por ano e se intitula o epicentro da inovação de seu país.

Estou falando de uma mesma cidade: Medellín, capital da Antioquia, na Colômbia, que em 30 anos se transformou drasticamente e hoje é referência internacional em políticas públicas de urbanismo e integração social.

Faz sete meses que estou vivendo em Medellín, junto com minha esposa e meus dois filhos, e neste tempo tenho buscado entender quais foram os caminhos que levaram a cidade a ser reconhecida como a mais inovadora do mundo* e a ser convidada a participar da Rede de Cidades Criativas, pela Unesco. Busco encontrar evidências que tornam Medellín uma referência para diversas cidades, além de atrair a atenção de startups e empreendedores.

Apesar da transformação social, ao caminhar pela cidade se vê que ela ainda compartilha problemas de muitas metrópoles latino-americanas, como a desigualdade social, periferias extremamente pobres, tráfico, consumo de drogas e muita prostituição, inclusive infantil. Isso atrai uma horda de turistas estrangeiros que buscam a cidade para esses fins.

Mesmo assim, Medellín se destaca devido à intervenção estatal. Entre 2001 e 2007, os prefeitos Luis Pérez e Sergio Fajardo, junto ao urbanista Alejandro Echeverri, promoveram mudanças significativas. Pérez implementou os metrocables, teleféricos que conectam as áreas pobres aos sistemas de transporte, enquanto Fajardo e Echeverri ampliaram escolas, bibliotecas, museus e parques nas periferias, aproximando populações marginalizadas e favorecidas e transformando espaços antes evitados.

A ideia urbanística é simples: desguetizar as comunidades pobres, integrando-as à sociedade. É a diversidade e a inclusão aplicadas ao urbanismo.

Mas o sucesso de uma política social e urbanística justifica o selo de cidade mais inovadora do mundo?

No livro De onde vêm as boas ideias, Steven Johnson compara a inovação aos recifes de coral, que, por oferecerem um ambiente protegido, atraem diversas formas de vida e promovem a diversidade e a inovação biológica. Da mesma forma, recifes artificiais criados por embarcações afundadas replicam esses ambientes, estimulando ecossistemas ricos e contribuindo para economias locais com pesca e turismo.

Em Medellín, desde o início dos anos 2000, há um esforço do poder público, realizado de forma planejada, de combater a violência através da integração da sociedade. Para isso, artificialmente “afunda navios” em diferentes lugares da cidade e, com isso, cria ambientes diversos, propícios para a inovação social. As ações bem-sucedidas também atraem a iniciativa privada, que vem investindo após ver a mudança social na cidade, e por sua vez também afunda os seus navios. Um exemplo é o Ruta N, um complexo de prédios construído para abrigar startups colombianas e de outros países.

Os índices de empresas de base tecnológica de Medellín são os que mais crescem na Colômbia. E em diversos pontos da cidade se vê outdoors com a frase “A capital do software”. Mas esse não é o único slogan que vemos por aqui. Faixas com os dizeres “Medellín, aquí todo florece”, “La ciudad más educada” ou “El epicentro de la innovación” estão por toda a parte, e estrategicamente reforçam o posicionamento de cidade inovadora.

Esses slogans, disseminados em campanhas publicitárias e intervenções urbanas, ajudam a cristalizar a nova identidade da cidade, destacando valores como inovação, inclusão e resiliência. Ao se tornarem parte do cotidiano, eles conectam cidadãos e visitantes a uma narrativa maior, onde a comunicação potencializa as ações e projetam Medellín como referência internacional em inovação e desenvolvimento. Políticas públicas, investimentos em educação e cultura e projetos urbanísticos foram cruciais, é claro, pois criaram um ambiente protegido e aumentaram a diversidade dentro da cidade. Mas a comunicação também tem um papel importante no posicionamento de Medellín como uma cidade inovadora.

Ao viver aqui, percebo que a sinergia entre ação e narrativa está em todos os cantos: no orgulho das pessoas, nas histórias contadas pelos murais e até na forma como os turistas falam da cidade quando voltam para casa. Medellín nos ensina que complementarmente às ações, comunicar a mudança ajuda a criar um ambiente de inovação – e talvez seja esse o seu maior legado.

¹ Em 1º de março de 2013, a cidade de Medellín foi reconhecida como a mais inovadora do mundo, ao bater Nova York e Tel Aviv. A premiação foi concedida pelo Citigroup em parceria com o The Wall Street Journal, a partir de votação aberta, online.

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