O Oscar de cada um
A indústria do entretenimento continua querendo ressarcir a sociedade pela falta de diversidade, muito comentada em anos anteriores
A indústria do entretenimento continua querendo ressarcir a sociedade pela falta de diversidade, muito comentada em anos anteriores
Época daquele resumão de conteúdo do ano, premiações e estatuetas, emoções e polêmicas. Época também do marketing do cinema tentar colher resultados e fazer filmes figurarem em estatísticas do Oscar.
Meio que sem jeito, envergonhado e pedindo desculpas, preciso dizer que achei Pantera Negra muito ruim. Carnavalesco, clicheteiro. Em alguns momentos, achei que estava vendo uma paródia afro de Conan misturada com Exterminador do Futuro e Máquina Mortífera.
Sem dúvida, a indústria do entretenimento continua querendo ressarcir a sociedade pela falta de diversidade, muito comentada em anos anteriores.
Resgate muito melhor, mais original, mais refinado e autoral é Infiltrado na Klan. Por que autoral se é baseado em uma história real? Porque Spike Lee não cedeu ao ativismo barato. E, sim, ele é um ativista feroz, o nome de sua produtora, 40 Acres and a Mule, evoca a promessa descumprida, no fim da escravidão, de que toda família de cor receberia 40 acres e uma mula para começar sua vida livre.
O filme é inteligente, perspicaz, dramático e engraçado na mesma medida, um equilíbrio “spikeano” difícil de se conseguir, em que o protagonista dá uma rasteira no preconceito e deixa a sociedade ultraconservadora com cara de boboca usando apenas sua inteligência.
Outra narrativa espetacular, sem clichês, nem concessões é Green Book – o Guia. Esta inclusive traz diversas temáticas interconectadas e explosivas: violência, homossexualidade, conflitos de cor e de classe, o isolamento da genialidade, só para citar alguns.
Um filme gigante pela economia e por contornar qualquer apelo fácil ou panfletário a qualquer um dos temas acima. A exemplo de Moonlight: Sob a Luz do Luar, ganhador do Oscar de melhor filme em 2017 e protagonizado pelo mesmo ator, Mahershala Ali, um filmão, ainda valorizado pela atuação também fora de série de Viggo Mortensen.
Bohemian Rhapsody é muito bom, especialmente para um fã do som do Queen desde sempre. Roma é original e contraintuitivo, no sentido de não ser um produto de consumo universal.
E Nasce Uma estrela? Adorei pelos motivos mais óbvios e pelos menos comentados. Óbvio que Lady Gaga surpreende. Óbvio que Bradley Cooper se mostra um excelente músico/compositor/ator/diretor e roteirista. Óbvio que as músicas são excelentes e que Shallow já é uma das grandes canções da história do cinema, me fazendo ter expectativa de novo por uma categoria de Oscar que às vezes me dá vergonha alheia pela caretice.
Mas o plot do filme, de livro escrito originalmente em 1937, 81 anos e três gerações para trás, nos mostra o poder que histórias humanas, contadas no individual, têm de tocar cada coração. A ponto de jamais serem superadas na autenticidade de suas emoções.
Ainda preciso ver Vice e A Favorita. Prometo que já terei visto quando este artigo sair.
Cada um tem seu gosto, talvez você pense totalmente diferente, e esta é uma das belezas da vida, mas my Oscar goes to… Green Book.
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