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O papa do marketing está triste

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Opinião

O papa do marketing está triste

Tomando como exemplo a situação atual de seu próprio país, Philip Kotler alerta ao fato de que o marketing precisa ser humanista


3 de abril de 2025 - 14h00

Não, a ameaça mais iminente ao potencial humano não vem da inteligência artificial, uma vez que, para operá-la, o homem continua sendo imprescindível. A ameaça pior surge sempre que o homem desconhece o seu igual na função civilizatória de mostrar que o espaço de um termina onde começa o do outro.

É que o espaço do outro, sendo um igual, fala do espaço de todos. E quando um homem se torna forte à frente de uma nação poderosa e se dispõe a pôr abaixo um século de civilidade entre as nações?              

Vivemos tempos assim e, quem diria, vem de um dos professores de marketing mais famosos da atualidade e nascido na mais notável sociedade de consumo do mundo, os Estados Unidos, o alerta de que o marketing precisa ser humanista. Philip Kotler, autor do livro Marketing H2H – A jornada do Marketing Human to Human, lançado no Brasil no ano passado, causou durante uma palestra online para estudantes brasileiros de uma famosa escola de propaganda em fevereiro deste ano.

O “pai do marketing moderno” declarou que está com vergonha do que acontece no país dele e reforçou que é preciso compreender o ser humano para além do consumo.

O motivo do lamento do professor são os rumos do governo do presidente dos EUA Donald Trump que, desde que foi empossado, em janeiro, vem colocando por terra o chamado “soft power” norte-americano – estratégia dos países para ganharem poder sem o uso da força. Trump dá de ombros para o soft power.

Como um bandoleiro dos filmes gringos de faroeste, e talvez buscando mesmo essa associação com o imaginário nativo, o presidente faz ecoar na mídia de todo mundo que não está nem aí para imigrantes (a mãe dele era e a atual mulher é imigrante). Manifesta desprezo pela soberania dos países e fala em tirar palestinos da Faixa de Gaza para transformar a região na Riviera do Oriente Médio.

Há semanas, a imprensa do mundo todo virou um megafone das falas que poderiam ser consideradas bravatas e insanas se não viessem do presidente do país que ele diz querer manter como a maior potência econômica e bélica do mundo.

Enquanto professor de imenso prestígio, com longa e sólida carreira construída e reconhecida, a fala do professor Kotler se opondo à linha do governo de seu país é importante.

Primeiro para sinalizar que uma personalidade lúcida, coerente, séria e proeminente dos Estados Unidos contesta a imagem que Trump quer criar no mundo para o país. Em segundo lugar, o professor mostra que evoluiu em seu pensamento fundamentado nas teorias do marketing que fizeram a fama e a fortuna dos EUA.

Philip Kotler sustenta, com seu desgosto manifesto pela política de Trump, que a América não precisa querer ser grande de novo porque não deixou de ser grande. Os EUA, assim como o mundo, assim como o marketing, evoluíram e não podem desconsiderar o ser humano que consome, seja hambúrguer seja cinema.

A voz de Kotler não ecoa como a de Trump, empoderado pelo voto popular e pelo colégio eleitoral como presidente da grande potência. O professor de marketing a sua maneira insiste no soft power que Trump despreza e desabona.

Kotler representa os EUA que não recusam o poder da riqueza gerada pelas bem-sucedidas ideias do marketing que os tornaram a potência que são. O professor só ensina uma outra vez que os milhões que consomem todos os tipos de produto dos Estados Unidos e que os fazem ricos, só o fazem porque são humanos.

Humanos hoje se conectam em redes, ligados em cada canto do mundo sem distinção de cor, renda e gênero. É bom ter cuidado com esses consumidores em larga escala, invisíveis, com a única certeza de que o que os unifica é o fato digamos banal de que são humanos.

Kotler sim, mantém viva a inteligência norte-americana, bem-vinda sempre porque como já disse Caetano Veloso, “americanos não são americanos; são os velhos homens humanos, chegando, passando, atravessando”.

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