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A liderança por trás da nova fase da Orquestra Sinfônica Brasileira

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A liderança por trás da nova fase da Orquestra Sinfônica Brasileira

Primeira mulher a comandar uma orquestra sinfônica no Brasil, a vice-chair e CEO da FOSB fala sobre o papel da cultura para o desenvolvimento social


2 de abril de 2025 - 13h18

Ana Flávia Cabral, vice-chair e CEO da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira (Crédito: Divulgação)

Ana Flávia Cabral, vice-chair e CEO da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira (FOSB), mantenedora da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), comemora os 85 anos da organização com vigor. Após um período complexo de dívidas e falta de pagamentos, a executiva foi responsável por reorganizar a casa e colocar a FOSB no patamar atual de estabilidade e credibilidade. Para além do feito, Ana se destaca por ser a primeira mulher a comandar uma orquestra sinfônica no Brasil, cadeira que ocupa desde 2017.

A trajetória profissional de Ana Flávia não é óbvia. Formada em direito pela PUC-SP, ela migrou dos escritórios de advocacia para a cultura. Começou a trabalhar ainda muito cedo, aos 12 anos, como office boy. Para ela, a responsabilidade do trabalho vai além de apenas ter um emprego ou ganhar dinheiro, mas significa como ela se coloca no mundo de forma produtiva. Ao longo da faculdade, fez estágios em escritórios de advocacia de destaque, e atuou como assessora jurídica em arbitragem, um método de resolução de conflitos. “Foi ali que comecei a enxergar o direito como ferramenta para promover democracia, direitos sociais e organização da sociedade, coisas como direito à vida e dignidade humana”, relata.

Ana fez sua primeira ponte entre direito e cultura quando entrou na Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), na equipe do presidente Fernando Henrique Cardoso, que à época presidia a fundação. Com o passar dos anos na instituição e um MBA em gestão de meios culturais, ela se especializou em direito das fundações.

Após alguns anos atuando em outras esferas da máquina pública, Ana Flávia entrou na Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, onde criou o projeto Conexões Musicais. Desde 2017, a iniciativa já passou por 38 cidades em 11 estados do Brasil promovendo aulas de instrumentos com músicos da OSB, classes de canto coral em escolas públicas e concertos didáticos, com a missão de democratização da música de concerto.

O resto da história ela mesma conta nesta entrevista ao Women to Watch. Ana Flávia Cabral fala sobre como reestruturou a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira (FOSB), como criou o projeto de educação musical para jovens na instituição e sobre os desafios de liderar uma organização sem fins lucrativos no Brasil.

Meio & Mensagem: Você é formada em direito. Como conectou sua experiência em gestão pública à cultura?

Ana Flávia Cabral: Trabalhando com música, você lida diretamente com pessoas e com políticas públicas. Acabei indo para o governo do Estado de São Paulo, onde fui coordenadora de todos os projetos de formação cultural. Paralelamente, dirigi um projeto do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para São Paulo, as Fábricas de Cultura, onde atuei em regiões mais distantes, de baixo IDH (índice de desenvolvimento humano) e com desafios de segurança.

Ali, passei a enxergar a cultura como instrumento de desenvolvimento humano e econômico para essas áreas. Era sobre usar a cultura para garantir direitos básicos e participação social. Depois, fui para a Prefeitura de São Paulo, mas por pouco tempo, porque fui convidada para o Governo Federal como secretária de planejamento e orçamento do Ministério da Cultura. Tive o privilégio de passar por todas as esferas de governo – municipal, estadual e federal –, o que me deu uma bagagem sólida na gestão pública. Planejar políticas e orçamentos para um País tão diverso como o Brasil foi um desafio enorme, mas fascinante. E foi um período em que ampliamos o conceito de política cultural, incluindo outras linguagens artísticas, como moda e design, nesse planejamento.

Depois dessa experiência no Governo Federal, voltei para a música. Fui para a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), mas levando toda essa bagagem de entender cultura como política pública e instrumento de promoção de direitos.

M&M: Você foi responsável por reestruturar a Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira. Como foi esse processo?

AFC: Minha atuação não se limitou apenas à parte educacional da missão institucional. Também precisei reformular toda a estrutura administrativa e financeira. Quando cheguei, a Fundação OSB estava sem patrocinadores — hoje temos 32 — e com dívidas significativas. Foi um processo delicado. Passamos nove meses sem pagar salários. Tivemos que negociar com fornecedores e até com os próprios músicos. Imagina só: propor um projeto transformador, precisar do engajamento de todos, mas sem ter certeza se conseguiríamos honrar com os compromissos financeiros.

Foi justamente nessa dificuldade compartilhada que construímos nossa relação de confiança. Os músicos passaram a acreditar no projeto porque vivemos aquilo juntos. Conseguimos sanar as contas e resolver todas as questões jurídicas. Hoje, temos uma realidade completamente diferente. Não diria que a instituição é 100% sustentável, porque ainda dependemos de patrocínios, mas conquistamos algo mais valioso: a credibilidade e a relevância social. A OSB foi criada para representar a música brasileira, com uma missão nacional desde sua origem. Desde que cheguei, trabalhamos para consolidar essa identidade, tanto na gestão administrativa quanto no reconhecimento da instituição como patrimônio cultural do Brasil.

Mas a história que estamos escrevendo na OSB é coletiva. Nada disso seria possível sem a entrega das lideranças dos músicos, o comprometimento da nossa equipe, do conselho e dos primeiros patrocinadores que acreditaram no potencial transformador da música. Sou profundamente grata a cada um deles por estarmos lado a lado nessa construção.

M&M: Você criou um projeto de impacto social para a Fundação. Pode falar um pouco sobre ele?

AFC: Cheguei na OSB com a proposta de repensar a missão da orquestra. Foi assim que criamos o Conexões Musicais, um projeto de educação musical que transformou completamente nossa trajetória. A ideia era fortalecer a função educativa da música, ganhando legitimidade social para isso. Não abandonamos as salas de concerto, mas expandimos e levamos o trabalho para as escolas públicas.

Orquestras são, por natureza, instituições de interpretação artística, e não necessariamente de transformação social. Mas nós fizemos essa ponte. Hoje, o projeto já está descentralizado e trabalha em parceria com diferentes esferas governamentais. Estamos construindo uma grande rede. Inclusive, estou indo para Penedo, em Alagoas, implantar mais um polo. Seguimos a mesma lógica das Fábricas de Cultura e da minha experiência no governo: atuamos em territórios de baixo IDH, usando a música como ferramenta de desenvolvimento econômico e social. São quase 9 mil alunos formados pelo Conexões Musicais. Se pensarmos em suas comunidades, nosso impacto é enorme. A música se torna um caminho para promover direitos e protagonismo. Quando as pessoas se reconhecem como cidadãs por meio da cultura, conseguem desempenhar melhor seu papel na sociedade. Essa sempre foi nossa aposta.

M&M: Quais os desafios de liderar uma organização sem fins lucrativos no Brasil?

AFC: Acredito que grande parte das dificuldades vêm da falta de compreensão sobre o papel da cultura na sociedade e na construção de um País. Existe um certo desprestígio, um descuido com toda a economia que a cultura movimenta. Se houvesse mais atenção das políticas públicas e dos governantes para o que a cultura representa, teríamos mais estrutura e sustentabilidade para as instituições culturais.

Estamos falando do setor que mais emprega jovens no Brasil, e isso não é só uma questão nacional. A cultura é o ambiente da criatividade, da transformação, desse poder de produzir e protagonizar, que combina perfeitamente com a energia produtiva da juventude. Não tem como pensar no futuro de um País, na sua competitividade econômica, sem considerar os jovens. Eles são a população economicamente ativa de amanhã. Mas, para pensar nesse amanhã, precisamos de compromisso, e ele só existe com consciência. Não dá para criar reflexão sem sentir. É aí que entra a cultura: ela trabalha no território do sentir, desenvolve nossa capacidade humana de emocionar, refletir e, só então, agir.

Por isso, vejo a cultura como base fundamental para qualquer processo relevante na sociedade. E, quando falo de cultura, incluo a educação, porque é ela que desperta nossa inteligência emocional, empatia, curiosidade, criatividade. A cultura, como ferramenta educativa, forma pessoas conscientes, responsáveis e preparadas para construir o futuro. Minha própria educação foi profundamente humanista. Cresci em uma família filantrópica. Meus avós se dedicavam a cuidar de crianças órfãs. Todas essas experiências moldaram meu entendimento sobre virtudes humanas e o bem coletivo, e isso está na base de toda a minha formação técnica.

Hoje, como responsável por uma instituição que impacta tantas vidas, essa bagagem faz toda a diferença. Quando me preparo para ir a lugares como Alagoas, por exemplo, estudo as dificuldades específicas daquela realidade. Essa formação humanista me deu a sensibilidade necessária para entender processos de vida, enfrentar desigualdades sociais e econômicas, e lidar com múltiplas vulnerabilidades. Trabalhar nesses contextos é desafiador, mas acredito que é justamente essa perspectiva que me permite atuar com o cuidado que essas situações exigem.

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