Quem lê as mulheres que escrevem?
Por que as experiências retratadas por homens são percebidas como universais, enquanto as retratadas por mulheres são vistas como essencialmente femininas?
Por que as experiências retratadas por homens são percebidas como universais, enquanto as retratadas por mulheres são vistas como essencialmente femininas?
4 de abril de 2025 - 8h14
(Crédito: Shutterstock)
Dia desses eu li um artigo que me deixou pensativa, e decidi trazer essa reflexão para cá.
No texto, publicado na revista AzMina, a autora Gabriela Mayer refletia sobre a profusão de escritoras mulheres e seu público majoritariamente feminino.
Ela contava que, em clubes de livros de autoras como Elena Ferrante ou Annie Ernaux, sempre chamou sua atenção o fato de que a imensa maioria das participantes eram mulheres. Parecia haver muitos poucos homens interessados em ler essas autoras e conversar sobre suas obras.
É curioso que as experiências retratadas por homens sejam percebidas como universais, enquanto as retratadas por mulheres sejam vistas como essencialmente femininas e, portanto, menores, considerando que vivemos numa cultura patriarcal etc etc etc.
Assim, as mulheres leem (e ouvem, e consomem, e prestam atenção a) todo mundo, independentemente de gênero, embora os homens pareçam intimidados – ou simplesmente desinteressados – em consumir conteúdos produzidos por mulheres, seja quando o assunto é livro, podcast, vídeo ou até mesmo um artigo na internet.
O foco de Mayer em seu artigo era na literatura, mas acho que dá para extrapolar para outras áreas. Quem lê, por exemplo, uma coluna chamada Women to Watch? Eu não tenho esses dados, mas chuto que o público dessas mulheres que tanto têm a dizer é sobretudo feminino.
Afinal, quem está interessado em ouvir o que as mulheres têm a dizer? Somente outras mulheres, ou homens também? Arrisco dizer que poucos homens demonstram real interesse em consumir o que mulheres produzem. Não leem mulheres, não escutam mulheres, ficam fechados em seus clubinhos.
Sim, nem todo homem, mas muitos homens. E aí, parece que o mundo virou um Clube do Bolinha x Clube da Luluzinha para adultos (referências que entregam a idade).
E, às vezes, isso vira uma armadilha: sabendo que o maior público são as mulheres, começamos a escrever focando o público feminino, nos reportamos a outras mulheres, e a engrenagem continua a girar.
Como fugir dessa lógica? Como quebrar a barreira? Será que o que as mulheres andam produzindo não tem mesmo potencial para ser de interesse universal? Não me parece ser essa a resposta.
Todos os dias abro o LinkedIn e vejo mulheres incríveis compartilhando suas experiências, os desafios de suas carreiras, as coisas que aprenderam com eles, e sinto de verdade que esses relatos poderiam inspirar qualquer pessoa, seja do gênero que for.
Da mesma maneira, leio minhas colegas de Women to Watch e acho que os insights que elas compartilham podem ser úteis para todo mundo. Falta os leitores se darem conta disso.
É claro que existem algumas experiências muito específicas de mulheres, e que queremos também falar sobre elas. Mas será que a maior parte de nossos relatos e ensinamentos não poderiam ser proveitosos também para um público masculino?
Ser mulher me traz desafios e experiências que eu não teria se fosse homem, fato. Mas isso não quer dizer que tudo o que eu tenho a compartilhar seja exclusivamente de interesse feminino. E, como eu, milhares de mulheres que têm seus espaços na rede e um público bem mais diminuto do que poderia ser, não fosse essa barreira invisível que afasta os leitores do conteúdo produzido por mulheres, por mais competentes que elas sejam.
Não tenho a solução para esse dilema. Por aqui, continuarei compartilhando minhas reflexões em relação à carreira, aos desafios que enfrento no dia a dia e à minha trajetória como planner.
Se mais mulheres se interessarem a ler o que tenho a compartilhar, está ótimo. Se os homens tiverem interesse, serão muito bem-vindos. Assim, todos ganham: as mulheres conquistam novos públicos, e os homens podem ter acesso a novos pontos de vista e refletirem sobre eles.
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