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As NTNs e a era da convergência das redes

Players de conexão via satélite defendem a regulamentação e a padronização para a integração com as infraestruturas terrestres em prol de melhor cobertura, confiabilidade e experiência do usuário


6 de março de 2025 - 8h54

Isabelle Mauro (GSOA), Eva Berneke (Eutelsat Group), Carmel Ortiz (Intelsat), Parth Trivedi (Skylo) e David Goldman (SpaceX)

Isabelle Mauro (GSOA), Eva Berneke (Eutelsat Group), Carmel Ortiz (Intelsat), Parth Trivedi (Skylo) e David Goldman (SpaceX): convergência das redes (crédito: Fernando Murad)

Apesar de a conectividade já ser uma parte indissociável das atividades cotidianas – profissionais e pessoais – de grande parte da população global há anos, o mundo ainda tem 2,6 bilhões de pessoas sem acesso à internet, de acordo com dados da União Internacional de Telecomunicações (UIT, na sigla inglesa).

Os serviços de non-terrestrial networks (NTNs), sistemas de comunicação wireless que operam acima da superfície da Terra, e que utilizam satélites, drones e plataformas de alta altitude, tem contribuído para diminuir esse gap.

Em uma outra frente, o desenvolvimento, a implantação e a integração das NTNs com as redes terrestres podem representar a melhora de cobertura, confiabilidade e experiência do usuário, gerando, ainda, oportunidades de negócios.

No entanto, o caminho para a convergência das redes é longo e passa por desafios como marcos regulatórios, padronização de sistemas e a cooperação entre os elos da cadeia.

Desafios e oportunidades

Para Eva Berneke, CEO da Eutelsat Group, as empresas de conexão por satélite foram por muito tempo uma pequena ilha e agora estão mais conectadas com o grande mundo da conectividade. “Para nós é sobre parcerias e colaboração. Isso significa trabalhar em torno dos mesmos padrões. Realmente quero fazer parte de um ecossistema maior. Isso também significa trabalhar com operadores e com o ecossistema”, afirma.

Quando pensa em oportunidades, Carmel Ortiz, vice-presidente sênior de tecnologia e inovação da Intelsat, pensa primeiro nos clientes. “A oportunidade é a capacidade de ter um único dispositivo, uma única assinatura, e não precisar realmente saber se eles estão na conexão por satélite ou terrestre”, indica.

Padrões e tecnologia

Para as operadoras, a oportunidade é sair de um ecossistema pequeno e alavancar a escala oferecendo serviços de forma mais econômica. Já em termos de desafios, a executiva aponta a maturidade dos padrões e da tecnologia.

“Especificamente, acho que os dispositivos serão realmente importantes, porque o ecossistema das operadoras de rede móvel está acostumado a um certo padrão e base de custo e é muito diferente no mundo dos satélites”.

Segundo Parth Trivedi, CEO da Skylo, empresa que oferece conexão por meio de satélites geoestacionários em 35 países, numa área de 60 milhões de quilômetros quadrados, a oportunidade é a escala e o desafio, a escalabilidade.

“Como definimos as expectativas corretas sobre a experiência do usuário? Como criamos um sistema que pode escalar com os novos recursos que são adicionados à rede? A indústria é limitada pelo espectro. Então, o que isso significa em relação à implementação de serviços de forma sustentável?”, questiona.

Para exemplificar o potencial da tecnologia, David Goldman, vice-presidente de política de satélite da SpaceX, mencionou casos de uso da solução dos satélites Starlink. O serviço tem os recursos Direct to Cell (DTC) que possibilitam o acesso à internet, mensagens de texto e voz em qualquer local.

“Ligamos recentemente em alguns países e imediatamente estava sendo usado em situações de salvamento de vidas e emergências, mesmo antes do nosso data center estar funcionando. Ligamos depois que um furacão atingiu o sudeste dos Estados Unidos e imediatamente tínhamos dezenas de milhares de dispositivos no sistema em lugares onde as redes terrestres tinham caído”, relata.

Em outro exemplo, a companhia ingressou na Nova Zelândia com um parceiro local que cobria 60% do território. Ao ativar o sistema, a empresa eliminou a lacuna. “A demanda está aumentando e aumentando. Começamos a lançar nossos satélites há cerca de um ano. Já temos mais de 500 deles e ainda estamos apenas começando. Não é apenas um toque de botão, são investimentos enormes e é realmente uma tecnologia difícil”, resume.

Parcerias e cooperações

Além da regulamentação e da padronização, a convergência de redes exigirá um trabalho em conjunto de todos os operadores de serviços de conexão.

“Quando vemos a capacidade fornecida do espaço, ainda estamos para ver o limite do que usamos. Estamos fazendo muitas parcerias, incluindo com a Intelsal e outras. Devemos misturar as capacidades que temos, porque ainda há grandes vantagens em usar o satélite estacionário em termos de estabilidade do serviço. Estamos fazendo isso com outros clientes que estão até misturando com 5G e 6G para garantir que sempre tenham capacidade em torno de hubs de grande demanda”, aponta Eva.

Para Carmel, dois aspectos devem ser observados no processo de regulamentação: encorajar e permitir a inovação técnica, promovendo casos de uso e negócios, e manter a ordem, com um número substancial de participantes do mercado.

“Temos um grande número de operadoras ao redor do mundo e o espectro é um recurso limitado, então, os reguladores têm um trabalho difícil para tentar equilibrar. As coisas mudaram muito nos últimos cinco anos. Veja o quão flexíveis precisamos ser. Essa flexibilidade e o equilíbrio são essenciais. Seria bom para todas as partes interessadas”, afirma.

O ambiente de cooperação no mercado foi exemplificado pelo CEO da Skylo. A empresa está lançando soluções IoT na Europa com várias operadoras e tem trabalhado com o ecossistema de desenvolvedores nos Estados Unidos, na Europa e em outros continentes para promover a integração de redes terrestres e não terrestres no mesmo device.

“Nos últimos dez dias, testemunhei meia dúzia de lançamentos de novos produtos em nossa rede que eram todos IoT dos quais eu nunca tinha ouvido falar até que eles foram lançados. É exatamente esse o lugar onde queremos estar, certo? Quero que lancem produtos na rede”, cita Trivedi.

Dois exemplos citados pelo executivo são um rastreador de animais de estimação e um rastreador de gado que é capaz de mapear a temperatura e a localização para entender os ciclos de lactação. “É incrível o que você consegue fazer com dados e isso impactará vários setores”.

Para garantir que isso aconteça, é preciso um trabalho para que a cadeia de suprimentos dessas empresas e empreendimentos seja o mais semelhante possível à de celulares, para eliminar possíveis mudanças de comportamento na adoção de redes NTNs. “Isso significa usar o mesmo device e o mesmo SIM card”, exemplifica.

Direct to device e Starlink

No caso da Space X, a empresa tem dois modelos. O primeiro deles, Direct to Cell (DTC), é feito em parceria com operadoras terrestres. “É como se estivéssemos conectados ao sistema deles, como acontece com a T-Mobile, nos Estados Unidos. Nossos satélites podem falar com seus devices. Não é nosso cliente, é o cliente da T-Mobile. O que o telefone faz é procurar uma conexão terrestre, mas se não conseguir, se conecta ao nosso sistema”, explica Goldman.

Já com o produto Starlink a empresa utiliza o próprio espectro. É um serviço fixo. Pode ser portátil, mas não é móvel. “Então, nenhum deles está competindo com a rede terrestre necessariamente, porque está no dispositivo direto, é um plug-in para essa rede. Estamos em cerca de 120 mercados para nosso serviço Starlink e em sete com o direct to device”.

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