SXSW saturado? Como a erosão da atenção afeta os eventos
Aceleração e cacofonia digital desafiam a relevância dos eventos, com participantes que tem cada vez mais dificuldade de exercitar a presença
Aceleração e cacofonia digital desafiam a relevância dos eventos, com participantes que tem cada vez mais dificuldade de exercitar a presença
Taís Farias
5 de março de 2025 - 6h00
Em 2025, o South by Southwest (SXS) chega à sua 35ª edição e, com a proximidade do evento, uma discussão aparece entre os frequentadores e desistentes: o SXSW está saturado?. No dicionário, saturado pode ser o impregnado, cuja quantidade chegou ao mais alto nível.
Austin, Texas, South by Southwest em 2019 (Crédito: reprodução)
O questionamento é válido para o festival. Mas, para além dos desafios e particularidades do SXSW, pistas sociais e comportamentais mostram que a saturação também pode estar nos visitantes de Austin e na carga atencional da vida moderna.
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O jornalista, escritor e doutor em ciências sociais Luis Mauro Sá Martino explica que estamos sendo, o tempo todo, bombardeados por informações que emergem de diferentes espaços e plataformas. “É como se vivêssemos em uma espécie de cacofonia constante, sem conseguir distinguir muito bem qual é o som em cada momento. Isso faz com que fique muito mais difícil definirmos qual é a informação importante para aquele momento. Precisamos nos concentrar muito mais para prestar atenção”, aponta.
O resultado disso seria a busca por informações cada vez mais rápidas e compactas. “Para um evento, isso se torna particularmente desafiador. Por que como você vai prender a atenção de um auditório? Como vai encontrar um tema que chame a atenção e que o público já não tenha visto centenas de vezes em redes sociais, nas informações que chegam nos aplicativos de mensagem?”, provoca.
Jornalista, pós-doutora em comunicação e semiótica e fundadora do Instituto Desacelera, Michelle Prazeres aponta que, de fato, o mundo está vivendo uma compressão do tempo com a aceleração técnica, do ritmo de vida e das transformações sociais. “É como se a lógica da produtividade se espalhasse para o resto da vida”, aponta.
Essa pressão pelo desempenho não deixa espaço para o descanso e acarreta uma erosão do humano. Isso, naturalmente, tem um impacto sob a ótica da criatividade. “Estar com a atenção colapsada faz com que as pessoas não estejam inteiramente nesses eventos e eles percam o sentido”, explica a fundadora do Instituto Desacelera.
Na lógica da produtividade, é como se o fato de estar nesses lugares fosse mais importante que fazer um processo de construção de memória e abrir espaços para eventuais descansos se torna um privilégio e não uma necessidade. “Chegamos nesses lugares com o nosso corpo totalmente condicionado ao desempenho”, explica Prazeres.
Para a pesquisadora, um dos caminhos seria um esforço ativo de construir presença nesses ambientes. Mas não para por aí. É preciso enxergar a questão como um dano e uma responsabilidade coletivas. “A regeneração da atenção é um tema que teremos que encarar como sociedade”, defende Prazeres.
Em 2024, um dos destaques do evento foi como a conjectura moderna estaria levando a uma epidemia de solidão. Apesar de extremamente conectados tecnologicamente, as conexões humanas estariam sendo deterioradas pelo individualismo, a violência, o extremismo etc.
Para a fundadora do Instituto Desacelera há uma conexão entre o isolamento e a cultura de desempenho. “A solidão ela não é um sintoma. É um projeto”, descreve. Indivíduos isolados seriam mais propensos a trabalhar, consumir e passar tempo nas redes em excesso. “Todo o trabalho que temos que fazer é um trabalho de reconstituição da humanidade”, defende Prazeres.
Na programação do SXSW 2025, alguns painéis tratam dessa humanidade. Em “Uncertainty: A Path to Flourishing (and Survival) in an Age of Flux”, a autora Maggie Jackson explora o não-saber e o abandono das certezas em uma era que ela descreve como de fluxo e angústia. Já o educador e ativista Simran Jeet Singh propõe aprofundar as conexões humanas por meio de uma reformulação dos conceitos de aliança e solidariedade.
Em solidão, “Curing Gen Z’s Loneliness” vai reunir especialistas em psicologia, ativismo social e defesa da saúde mental para debater as raízes da desconexão e como ela afeta essa geração.
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